quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

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História 1


A história conta-se em poucas (enfim...) palavras. Estava-se no fim do verão de um ano qualquer da década de 90 e a minha missão para esse dia consistia em pilotar um Boeing 737/200 entre o Porto e o Luxemburgo seguindo depois para Lisboa. Um dia "fácil", em gíria de piloto, pois que que envolvia apenas meia dúzia de horas de voo e duas aterragens, tudo isto em condições meteorológicas mais que favoráveis. O avião que recebi no aeroporto de Pedras Rubras (era assim que se chamava na altura) tinha lotação esgotada, cerca de 120 passageiros quase todos emigrantes de regresso ao seu país de acolhimento e tudo na sua caderneta técnica estava em ordem, com sempre foi norma na TAP. Mas as coisas acontecem e nesse dia aconteceram mesmo. Descolámos na pista 36 e logo depois ao accionarmos a alavanca que comanda o trem de aterragem verificámos que a dita não funcionava. Nova tentativa e ... nada, o trem continuava em baixo e bloqueado. Entretanto o colega que comigo partilhava o cockpit alertou-me para a ausência de pressão hidráulica no indicador do sistema respectivo. Não havia nada a fazer, tínhamos que voltar ao Porto.
Estabilizado o avião e informado o controle de tráfego aéreo dirigi-me aos passageiros com a voz mais calma do mundo explicando a situação e dizendo que com o trem descido a resistência aerodinâmica iria de tal forma penalizar o consumo de combustível que nunca conseguiríamos chegar ao nosso destino. Teríamos que voltar a aterrar em Pedras Rubras mas até tínhamos a vida facilitada porque o trem de aterragem já estava onde devia estar e isso até nos poupava algum trabalho. Houve risos entre os passageiros e a calma parecia reinar, ao que me contava a chefe de cabine. A aterragem foi suave e aproveitei o grande comprimento da pista para deixar deslizar o avião até que este se imobilizasse naturalmente pois que com este tipo de avaria a capacidade de travagem fica algo diminuída bem como o controle direccional no solo. Os problemas só surgiram quando as ambulâncias e carros de bombeiros começaram a rodear o aparelho. Este é um procedimento de rotina que é activado sempre que um avião aterra com limitações técnicas mas a realidade é que os pasageiros não gostam de ver "ti-nó-nis" por perto e logo se estabeleceu algum pânico. Que se passa? O aparelho está a arder? Ai valha-me Deus!!! Enfim, viveram-se momentos de alguma preocupação e consta que até uma passageira sofreu um ligeiro desmaio, nada de especial. Mas graças à intervenção da tripulação de cabine tudo se resolveu rapidamente e a situação acalmou.
Rebocado o avião para o estacionamento a avaria foi então reparada e quatro horas depois os passageiros foram novamente chamados para retomarem a viagem. Compareceram todos excepto um. Aliás uma, que teve porém a gentileza de me mandar um bilhete através do oficial de placa. Rezava mais ou menos assim: "Senhor Comandante: muito obrigado por nos ter salvo a vida (grande exagero, digo eu...) mas a partir de agora para o Céu só volto com a Nossa Senhora. De avião é que nunca mais. Vou de autocarro para o Luxemburgo. Boa viagem. Aurora"
#aviação #TAP

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