• O Aviador

    Histórias mais ou menos divertidas de uma vida passada dentro dos aviões da TAP

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

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História 15

O Brasil no seu melhor
Setembro de 2001. Os atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque tinham acontecido há meia dúzia de dias e em consequência dessa tragédia havia uma enorme tensão no ar. Literalmente. Ninguém ia voar tranquilo, pois pouco ou nada se sabia sobre as motivações e estratégias dos militantes islâmicos. Receava-se que mais coisas do género pudessem acontecer em qualquer parte do mundo mas independentemente disso já era mais que garantido que depois daquela data fatídica muita coisa iria mudar na aviação, seguramente para pior.
A história que vou contar aconteceu uma semana depois dos atentados, mais coisa menos coisa. Voava de Lisboa para S. Paulo aos comandos de um Airbus A340 completamente cheio, como era habitual nessa linha. Perto de 300 pessoas a meu cargo entre passageiros e tripulantes. Barra pesada, naqueles dias difíceis.
A tensão a bordo era notória mas todos procuravam resignar-se e manter a calma sabendo que entre Lisboa e S. Paulo tínhamos perto de 10 horas para lidar com toda a espécie de emoções e que o tempo iria custar a passar.
O voo decorreu sem incidentes durante mais de seis horas, ou seja, quase toda a travessia do Atlântico, e começávamos a aproximar-nos do Nordeste Brasileiro por alturas de Fortaleza. Foi então que o Supervisor de Cabina entrou pelo cockpit dentro com ar assustado e disse:
"Comandante, temos um problema. Há dois passageiros estrangeiros que estão a distribuir pancada por toda a gente na zona da classe económica. A situação está fora de controle e já há feridos."
Não precisei de ouvir mais nada. Mandei colocar dois comissários à porta do cockpit com ordens rigorosas para não deixarem entrar ninguém, pois ao tempo aquela porta até uma criança conseguiria arrombar. Entretanto dei conta ao Controle de Tráfego Aéreo de que algo de anormal se passava a bordo e pedi para aterrar em Fortaleza, o que foi imediatamente autorizado.
Durante a descida um dos comissários entrou no cockpit com a camisa coberta de sangue para me anunciar que os passageiros se tinham organizado e conseguiram imobilizar os autores dos desacatos amarrando-os com os cintos das calças. Dias depois do 11 de Setembro o espectáculo não podia ser mais deprimente e toda a gente a bordo já só ansiava por terra firme para aliviar os medos.
Depois da aterragem apareceu no avião uma brigada da Polícia Federal que logo tratou de levar os dois agressores para interrogatório. Entretanto os restantes passageiros e tripulantes recuperavam o fôlego enquanto aguardávamos autorização para seguir viagem para S. Paulo.
Cerca de meia hora depois da detenção o chefe da polícia voltou ao Airbus e disse-me qualquer coisa como isto:
"Comandante, temos um problema (mais um, pensei eu...). Já identificámos os indivíduos. São dois holandeses residentes em S. Paulo, que falam e entendem razoavelmente o português. Disseram que são toxicodependentes e como não os deixaram fumar nem beber a bordo entraram numa crise de ansiedade que os tornou violentos."
"E qual é o problema, delegado?", perguntei
"O problema é que eu não posso reter os dois holandeses sem uma denúncia formal e para isso preciso de testemunhas. Terei que ouvir todos os passageiros do avião."
"Entendi. Isso pode levar uma horas, não?"
"Umas horas? Uns dias, Comandante. São trezentas pessoas."
"Mas que quer então que faça, delegado? Quer que eu continue viagem com os agressores a bordo? É que ainda temos quase quatro horas de voo pela frente; os meus passageiros nunca aceitariam tal coisa."
"Deixe-me pensar", respondeu.
O delegado da Polícia Federal pensou e repensou e passados uns bons dez minutos veio ao meu encontro:
"Comandante, já sei. Eu volto para o gabinete e faço mais umas perguntas aos "caras". Enquanto isso você fecha as portas do avião e vai para a pista. Quando descolar (os brasileiros dizem "decolar") eu venho à janela e grito: Puta que pariu, o português fugiu!!!"
E assim foi. Seis horas mais tarde os dois holandeses foram colocados num voo doméstico para S. Paulo, já nós estávamos no hotel a descomprimir com uma mais que merecida caipirinha.
Viva o Brasil!
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História 14


Prestes a perder os sentidos na câmara de descompressão da Base Aérea de Mac Dill, Florida. Instantes depois o sargento da USAF que se vê em primeiro plano iria colocar no meu rosto a máscara de oxigénio que me devolveria à consciência. O objectivo do teste era demonstrar as consequências de uma descompressão lenta em altitude. A perda gradual de oxigénio leva a um estado de quase euforia (gargalhadas frequentes) numa primeira fase mas depois manifesta-se pela incapacidade de realizar as tarefas mais simples como escrever o próprio nome ou somar 2 + 2, por exemplo. Pouco depois acontece a perda de consciência e, se nada for feito, a morte.
Durante toda a minha carreira só tive que lidar com despressurizações em testes de simulador, manobra obrigatória em todas as verificações semestrais. São raríssimos os casos documentados na TAP durante os últimos 40 anos e os que aconteceram não tiveram consequências.
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História 13


Sexta feira passada a gravar uma entrevista a propósito de "O Aviador" para o canal de televisão da TAP. Com agradecimentos a Ana Morgado, Inês Teixeira e restantes membros da magnífica equipa do Departamento de Comunicação da TAP pelo seu interesse por este trabalho.
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História 12


Sim, por vezes as estadias em Caracas eram um bocadinho monótonas.
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História 12


Aventuras de um Boeing de carga na Nigéria
Durante um período da década de 80 a TAP utilizou um dos seus já algo cansados Boeing 707C em operações do tipo "full cargo" que consistiam em transportar exclusivamente carga para vários pontos do globo. Era um tipo de serviço que me agradava particularmente por várias razões: em primeiro lugar porque o facto de não haver passageiros tornava a operação mais flexível em termos de horários e responsabilidades e depois porque voávamos para lugares que nada tinham a ver com a rede comercial da companhia. Era uma actividade meio "pirata" gerida por fax e telegrama que deixava às tripulações uma quase total liberdade de acção mas que também obrigava a uma elevada dose de criatividade para ultrapassar os obstáculos que sempre iam surgindo, nomeadamente em países do chamado terceiro mundo.
Por esses dias um dos nossos destinos era Lagos, na Nigéria, já então um dos países mais corruptos e inseguros do mundo. Não me recordo que tipo de carga levávamos para para tal lugar mas sei que para lá se efectuaram vários voos dos quais me "tocaram" dois, que são a base desta história.
No primeiro destes serviços para que fui escalado foi com surpresa que verifiquei durante o "briefing" em Lisboa que ao comandante do serviço era entregue um envelope recheado com notas de dólar, especialmente cédulas de 10 e 20. Destinavam-se a gratificar os carregadores do aeroporto os quais até então demoravam várias horas para descarregar e carregar o avião, provocando grandes prejuízos à TAP uma vez que o aparelho em causa era necessário para outros voos. Apesar da "gratificação" dessa vez a operação de descarga / carga em Lagos demorou uma eternidade. Melhor que sem gratificação, mas uma eternidade mesmo assim. Aproveitei então para dar uma volta pelo novo terminal, uma réplica fiel do aeroporto de Schipoll, em Amsterdam, por esse tempo considerado a referência mundial em termos de aeroportos . Era tudo igual. Até tinha dois limpa neves, equipamento que como se sabe é muito necessário em cidades cuja temperatura média anual anda pelos 30 graus centígrados. Mas como o aeroporto foi comprado "chave na mão" ao mesmo consórcio que construiu Schipoll lá vieram os limpa neves no pacote. Invulgar? Nem por isso. Na Nigéria tudo era possível.
Um par de semanas depois fui novamente escalado para o voo cargueiro com destino a Lagos. Uma vez chegado ao despacho operacional da TAP em Lisboa lá fiz a pergunta da praxe: "Então e os dólares, levam-se ou quê?"
"Nada disso", responderam. "Vocês agora levam meia dúzia de caixas com garrafas de vinho, daquelas doses individuais que se servem aos passageiros de classe económica. Já fizemos isso em voos anteriores e o avião foi descarregado em menos de um fósforo".
"Mas aquilo é um país muçulmano!", disse eu com espanto do alto da minha abençoada ingenuidade. "Eles não podem beber álcool. Não haverá problemas?"
Quais problemas qual nada. Lembro-me que minutos depois de termos aterrado em Lagos ainda o avião se dirigia para o estacionamento e já se via um grupo de pessoas a correr na nossa direcção fazendo o gesto universal que consiste em enfiar o polegar na boca e fazer "beicinho". Ou seja, em linguagem gestual, "no wine, no work". Perceberam?
Quanto tempo demorou a escala? Muito pouco. Alguém no departamento comercial da TAP tinha tido uma ideia genial e os resultados estavam bem à vista.
Nota: A fotografia é do mesmo autor do texto e foi obtida sobre o Alentejo durante um voo de treino (base) em Boeing 707.
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História 11


No Airbus A340/300 da TAP aguardando autorização de descolagem na pista 05 do Maputo para um voo de pouco mais de uma hora até Joanesburgo. Depois eram só mais dez horas de viagem até Lisboa.
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História 10


No cockpit de um Boeing 737/200 com Teresa Carvalho, a primeira mulher a tornar-se piloto da TAP. Nesta fase a Teresa estava ainda em instrução pelo que não vestia uniforme. Tenho o maior orgulho em ter participado na sua formação numa época em que as mulheres começavam a quebrar todos os tabús. Este era um deles.